Cláudio Aguiar, escritor  

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   Primeiro viver, depois escrever

       Entrevista a Cláudio Aguiar (Salamanca, Espanha, 1984)

 José Saramago: “Acho, porém, que o escritor começa a escrever quando nasce...(...) Neste sentido, todos nós, potencialmente, somos escritores. Poucos, porém, ousam ou conseguem contar suas experiências. Por outro lado, ninguém escreveria sem viver. E todos vivem, de uma forma ou de outra”.

José Saramago, 62 anos, nascido na aldeia de Azinhaga, em Portugal, declara-se autodidata. Na vida já exerceu várias profissões – serralheiro, mecânico, funcionário público, jornalista e, por fim, escritor ou profissional da literatura, como costuma dizer: “Não sou escritor por acidente, mas porque um acidente me colocou perante eu mesmo, o escritor”. Declara-se sem influências, mas, ao mesmo tempo, afirma que leu muito Graciliano Ramos, a quem considera o maior escritor brasileiro. Dos clássicos brasileiros faz questão de destacar Machado de Assis e Raul Pompéia. 

            Originário de uma família rural, José Saramago publicou o seu primeiro romance Terra do Pecado, em 1947, e somente 20 anos mais tarde retornaria à atividade literária, escrevendo poesia e teatro. Em 1976 apareceu o seu segundo romance Manual de Pintura e Caligrafia.  Seria, porém, com Levantado do Chão,  que Saramago conheceria um grande êxito, o que levaria a editora Difel a publicá-lo no Brasil, em 1982, e, com o surgimento do seu último romance Memorial do Convento,   a mesma editora, no ano passado, o lançaria a todas livrarias brasileiras. Este romance, considerado pela crítica como um painel no qual afloram algumas questões básicas do devir histórico português, constituiu, também, uma metáfora especial da opressão e da libertação. Tendo como ponto de partida a construção do convento de Mafra e a Passarola, ordenada a inícios do século XVII por um rei devoto, logo conquistou a simpatia do público e o prêmio do Pen Club, de Portugal.

            José Saramago hoje (novembro de 1984, em Salamanca, Espanha) nos fala sobre as suas técnicas literárias e faz outras confissões que demarcam profundamente o novo caminho da literatura contemporânea em Portugal.

 Imaginação e estética

             “Não creio que a imaginação seja algo que brote de modo  irreprimível no escritor. Essa visão quase romântica de ver a criação literária, sobretudo como imaginação pura e transbordante, não se deu comigo. Os meus livros são frutos de um duro e persistente trabalho de reflexão, no qual posso, inclusive, identificar duas etapas distintas: primeira, seria a de preparação do livro, quando faço as notas, os apontamentos, a definição dos personagens, etc., até encontrar razões e motivos que me dão a certeza de que é tempo de partir para a versão definitiva; e, a segunda, em termos genéricos, vem com a reflexão da história, quando tomo um determinado caminho para contá-la. Tudo isso se passa, então, como se antes da palavra ser escrita, houvesse um processo de investigação, o que de fato aconteceu na construção romanesca de   Memorial do Convento”. Isso, todavia, não quer dizer que o   livro se defina na partida inicial, isto é, no primeiro impulso ou tentativa. Há todo um trabalho de pensar e só depois se passa ao   fazer propriamente dito. É, na verdade, como se eu premeditasse aquilo que irá acontecer. Mas, é preciso esclarecer que isso não significa um fechamento da obra em si mesma. Ao contrário: ela fica aberta a tudo que venha a confluir ainda que de modo repentino ou mesmo que seja uma aparente contradição para a construção e compreensão do livro. Para tanto bastará que tal contradição se concilie com a idéia central para que seja aproveitada. Exemplo disso é o caso do parto de uma mulher, em Alentejo, que narro em  Levantado do chão, em que aparece um momento que descrevo o fato de a criança ser visitada pelo pai, tio e avó como se fora, por uma associação de idéias, a presença dos Três Reis Magos, embora se saiba que na região alentejana esta tradicional visão do nascimento do Menino Deus não se confunde, na prática, com a chegada de uma criança qualquer. Mais tarde, na própria narrativa, vejo que esta imagem é absorvida com naturalidade, porque o que se dá é que o projeto inicial se ampliou a dimensões anteriormente desconhecidas. O que importa, no final, é que haja uma planificação antes de se conceber formalmente o livro e, no meu caso, tal perspectiva deverá, de certo modo, estar compatibilizada com uma clara liberdade de escrever o que é imaginado. Neste sentido, não vejo a necessidade de estabelecer uma prévia estética especial, justamente porque eu quero me sentir livre dentro dela”.

 Como repensar o passado

            “Repensar o passado, como tento em   Memorial do Convento, não é, para mim, apenas a circunstância de abordar alguns episódios ou fatos da realidade histórica. Ainda que os conheça em profundidade, eles funcionam como ponto de partida e nunca como de chegada, porque o meu propósito não é somente repensar o passado, mas mostrar que se pode participar do passado, e, a partir dessa participação, compreender o presente e, até, se possível, projetar-se no futuro. Exemplo disso é a passagem que escrevi no romance   Memorial do Convento, em que durante a sagração da Basílica do Convento de Mafra, em 1730, usavam-se várias faixas de veludo que eram levadas numa procissão pelos cônegos, entre cravos e flores, de acordo com um costume da época. Pois bem, deste singelo acontecimento preferi ver uma coisa que simbolizasse a realidade que só viria a acontecer 200 anos depois, quando afirmei mais ou menos assim: — “Ai! o destino das flores, um dia as meterão nos canos das espingardas”, numa clara alusão ao Movimento de 25 de Abril de 1974”. “Como se vê, o passado pode ser utilizado como carga positiva de tudo o que foi visto antes e, ainda, enriquecer a tudo que acontece agora ou amanhã. O tempo deixa de ter um significado estático e passa a ter uma extensiva conotação plástica. Não que seja uma coisa atemporal, mas algo verificável, talvez muito além do recurso exclusivamente poético”. 

Os destinatários da obra literária 

            “Embora pareça paradoxal, escrevo livros para mim mesmo. Explico-me, para que não pareça que estou delirando. Quando digo que o destinatário sou eu, quero dizer que o   eu é plural. E tal acontece na medida em que eu, constante e ininterruptamente estou em relação com os outros, os demais, os terceiros, a sociedade, enfim, com os quais mantenho afinidades e consonâncias. E ainda: ao escrever não estou a pensar em grupo social, linhas ideológicas, políticas, etc., mas querendo dizer algo a mim mesmo, desejando ouvir a minha própria voz, se possível, até à exaustão, para que o material que ofereço seja utilizado pelo leitor como uma coisa que lhe diga respeito e seja, ao mesmo tempo, eco daquilo que ele também poderá dizer, embora não seja escritor. Tudo se passa como se eu estivesse a ouvir a minha própria voz através dos leitores, como se existisse uma ligação real entre o autor e o leitor”.

 As influências herdadas

             “Não diria que sou um escritor original, porque, para ser franco, já nem sei o que pode ser original hoje em dia. O que sei é que não tenho e, ao mesmo tempo, tenho todas as influências, porque a minha obra não existiria sem as leituras dos livros que li. Se tivesse que citar alguns, preferiria falar dos clássicos do século XVII, porque neste período se escreveu uma literatura com linguagem quase gustativa, este sabor extravagante e inusitado que bem gostaria de encontrar nos meus livros. Tenho admirações por muitos autores, aos quais devo pontos de contato, talvez de um estilo que se poderia, depois de algumas filtrações, encontrar vestígios em minha ficção. Ou mesmo a ironia que abraço com interesse, que alguém poderia dizer que herdei da fonte queiroziana. Não sei. Não vejo influências diretas, mas, várias raízes, às quais, nós escritores, não podemos fugir, sobretudo daquelas derivadas de nossas leituras”.

 Os anos perdidos 

            “O Movimento de 25 de Abril, em Portugal, veio a encontrar a maioria dos escritores portugueses naquela situação da roda que tem dentes para movimentar outras engrenagens de uma maquina qualquer, que, aliás, nunca funcionava. Eram livros escritos sem nenhuma necessidade imperiosa, por mera experiência pessoal, caprichos, vaidades, completamente dispensáveis à vida dos possíveis leitores. Com o advento do Movimento de 25 de Abril nos encontramos, então, diante de uma realidade diversa: não existiam livros novos publicados. E o que era pior: a maioria dos escritores não sabia o que, como e porque escrever”.  “No meu caso pessoal deu-se uma experiência curiosa. Foi como se abrisse devagar uma cortina à minha frente. Mesmo assim, vivi momentos duros, já em plena abertura e convivência com a liberdade tanto esperada após os anos perdidos... Fui demitido do jornal   Diário de Notícias, onde exercia a função de diretor-adjunto e isso, por incrível que pareça, viria a obrigar-me a me tornar um escritor profissional, o que, a princípio, tive que compartir com a atividade de tradutor. Há anos, portanto, vivo exclusivamente para a literatura. Assim como se deu comigo, muitos outros logo descobriram que na sociedade portuguesa atual, o papel do escritor deixava de ser um trabalho de um homem marginalizado para ser visto como o de um cidadão normal”. 

A farsa absurda da desordem 

            “Sobre o conflito entre a ordem e a farsa absurda da desordem, em relação ao estilo e à forma, prefiro assinalar que cada um deve resolver os seus próprios problemas pessoais. E tal se dá porque neste particular não há receitas garantidas”. “No meu caso pessoal, descobri que a frase deveria alcançar uma certa liberdade formal, sobretudo quando introduzi os elementos, os materiais da realidade. Quer isso dizer que resisti à tentação de cair no fácil jogo do discurso oral e busquei o aproveitamento de novos recursos, mesmo que tivesse de subverter a rigidez da escrita, sobretudo nas suas articulações mais imediatas — frases, períodos, parágrafos, pontuação, etc., o que não me foi nada fácil. Por outro lado, tentei construir uma frase que lembrasse o mais aproximado possível a técnica da harmoniosa frase musical, de modo que as palavras se sucedessem sem cortes, mas cadenciadas, obedecendo a um modelo, a exemplo do que acontece com a composição musical. Assim como se passa com as notas de uma música, nenhuma palavra é poética se a ela não segue uma outra palavra”. 

Primeiro viver, depois escrever? 

            “Na vida não se dá esta afirmação. Rimbaud, com apenas 18 anos, fez a sua obra. O que escreveu depois ninguém conhece. É que na verdade começamos a viver desde o instante em que nascemos. Claro que as experiências da infância, da adolescência, como as demais fases da vida, sempre nos acompanharão. Acho, porém, que o escritor começa a escrever quando nasce, embora só possa ser considerado como tal quando for capaz de tornar visível a sua obra. Aí, a meu ver, reside o problema. Neste sentido, todos nós, potencialmente, somos escritores. Poucos, porém, ousam ou conseguem contar suas experiências. Por outro lado, ninguém escreveria sem viver. E todos vivem, de uma forma ou de outra. Ainda que a um homem fosse dada a obrigação de testemunhar, desde o primeiro dia de vida apenas o nascimento e o desenvolvimento de uma planta, eu creio, que ele teria uma interessante história para contar”.

 


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